Perda do Título de Patrimônio Cultural: Disputa e Polêmica
Quando pensamos em Patrimônios Culturais Imateriais da UNESCO, imaginamos celebrações, danças, sabores e saberes que unem povos e atravessam séculos. São expressões vivas da identidade humana — desde a arte do pizzaiolo italiano até o ritmo envolvente do samba brasileiro.
Diferente dos patrimônios materiais (como monumentos ou sítios arqueológicos), os imateriais são feitos de gestos, sons, receitas e memórias compartilhadas.
Mas nem sempre a cultura é sinônimo de harmonia. Às vezes, ela acende disputas acaloradas entre países vizinhos ou povos que compartilham origens semelhantes. Um prato típico, uma dança ou uma técnica artesanal podem se transformar em símbolos nacionais tão poderosos que geram debates sobre autoria, autenticidade e pertencimento.
Em um mundo globalizado, onde fronteiras se diluem e tradições viajam com as pessoas, certas práticas culturais acabam despertando a pergunta incômoda: “De quem é isso, afinal?” E é justamente nessas zonas cinzentas da identidade que nascem algumas das histórias mais fascinantes (e polêmicas) do patrimônio imaterial mundial.
O valor simbólico do reconhecimento
Ser reconhecido pela UNESCO é conquistar uma forma de imortalidade cultural. Quando uma tradição entra para o rol dos Patrimônios Culturais Imateriais, ela passa a representar mais do que uma prática local: torna-se um emblema de identidade nacional, uma fonte de orgulho e, muitas vezes, uma poderosa ferramenta de diplomacia cultural.
Por trás desse reconhecimento, há também aspectos muito concretos. O título pode atrair turistas, movimentar a economia regional e até inspirar políticas públicas de preservação. Para comunidades que lutam há décadas para manter vivas suas tradições, o selo da UNESCO funciona como uma validação: o mundo inteiro está, enfim, olhando para elas.
Mas é justamente aí que mora a tensão. Quando uma prática é declarada patrimônio de um país, outros que compartilham a mesma tradição podem se sentir excluídos ou apagados da história. Afinal, receitas, ritmos e rituais raramente respeitam fronteiras políticas — eles viajam, se misturam e se reinventam com o tempo.
Assim, o reconhecimento que deveria unir, às vezes divide. O orgulho nacional se mistura com a rivalidade, e a celebração da diversidade se transforma em disputa por protagonismo. O que deveria ser um gesto de preservação vira, de repente, uma batalha pela autoria da memória.
Casos famosos de controvérsia
Nem só de aplausos vive o patrimônio cultural. Quando o reconhecimento da UNESCO entra em cena, ele pode acender rivalidades tão intensas quanto as paixões que cercam as próprias tradições. De pratos típicos a ritmos contagiantes, alguns costumes transformaram-se em verdadeiros campos de disputa diplomática e emocional. A seguir, vamos ver alguns exemplos disso:
O kimchi e a guerra do repolho fermentado
O kimchi, prato fermentado e picante feito principalmente de vegetais e temperos como alho, gengibre e pimenta, é considerado um símbolo da identidade coreana. Presente em praticamente todas as refeições, ele representa não apenas um alimento, mas um elo com a história, o clima e os costumes de um povo que aprendeu a preservar os vegetais para enfrentar os rigorosos invernos.
A controvérsia começou quando a China registrou oficialmente o pao cai, uma conserva semelhante, como patrimônio cultural próprio. A decisão provocou uma disputa diplomática e cultural: coreanos viram o gesto como tentativa de apropriação, enquanto os chineses defenderam que o ato se referia a outra tradição de fermentação, com receitas e contextos distintos. O episódio expôs como a culinária pode ultrapassar a cozinha e tornar-se símbolo de soberania e orgulho nacional.
O tango entre dois amores
Por décadas, Argentina e Uruguai disputaram a autoria do tango, cada um reivindicando ser o verdadeiro berço dessa expressão artística. Em 2009, quando a UNESCO o reconheceu como Patrimônio Cultural Imaterial, os dois países passaram a compartilhar oficialmente o título. A decisão refletiu a origem comum do gênero nas margens do Rio da Prata, onde imigrantes europeus, afrodescendentes e trabalhadores urbanos deram forma a uma música e a uma dança que expressam saudade, desejo e identidade coletiva.
O reconhecimento conjunto encerrou a rivalidade e destacou um ponto essencial: muitas manifestações culturais não pertencem a uma única fronteira, mas ao cruzamento de histórias, influências e afetos que ultrapassam limites nacionais.
O café turco que não é só turco
Poucos rituais são tão universais quanto preparar café, e o café turco se destacou ao ser reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Turquia. Tradicionalmente preparado em pequenas chaleiras chamadas cezve, com moagem fina e fervido lentamente, o café turco acompanha rituais sociais e familiares há séculos, sendo servido em ocasiões formais e informais, sempre ligado a hospitalidade e convívio.
Grécia, Bósnia, Armênia e outros países da região reivindicam versões próprias da bebida, com métodos e nomes semelhantes, como o Greek coffee ou o Bosnian kahva, cada um com pequenas variações de preparo e contexto cultural. A controvérsia não se limita ao sabor: envolve história, identidade e herança cultural, levantando questões sobre a origem, a preservação das tradições e o reconhecimento internacional de uma prática compartilhada por várias nações.
Quando a cultura não tem fronteiras
Em um mapa-múndi cultural, as linhas que separam os países parecem cada vez mais borradas. A verdade é que a cultura nunca respeitou fronteiras políticas — ela se move com as pessoas, mistura idiomas, temperos e ritmos, e cria novos significados em cada lugar por onde passa.
É por isso que a UNESCO, ao reconhecer um patrimônio imaterial, busca equilibrar dois valores delicados: a identidade local e a herança compartilhada. Em muitos casos, o reconhecimento é conjunto entre nações, como forma de celebrar a colaboração em vez da competição.
Um exemplo simbólico é o da dieta mediterrânea (patrimônio compartilhado por sete países) que partilham não só ingredientes, mas também a filosofia de comer em comunidade, uma vitória do diálogo sobre a divisão. Já o yoga, a falcoaria e a cerimônia do chá mostram como tradições podem viajar, transformar-se e ganhar novas formas de expressão em diferentes culturas.
Esses casos mostram que a cultura é mais viva quando é compartilhada. O que torna uma tradição especial não é a bandeira que ela carrega, mas a forma como as pessoas a mantêm pulsando — ensinando, praticando, reinventando. Ao reconhecer o valor das expressões que cruzam fronteiras, a UNESCO reforça uma mensagem poderosa: preservar o patrimônio imaterial é também preservar o diálogo entre povos.
O outro lado da moeda: perder o título de patrimônio
Nem toda história cultural termina com aplausos ou reconhecimentos. Algumas tradições, mesmo após ganharem o título de Patrimônio Cultural Imaterial, correm o risco de desaparecer — e não por falta de valor, mas por falta de continuidade. A UNESCO não entrega um título para sempre: ele é um chamado à preservação, não uma medalha eterna. Quando práticas deixam de ser transmitidas, perdem espaço nas comunidades ou se transformam a ponto de perder sua essência, podem ser retiradas da lista ou entrar em observação.
É o caso de certas tradições artesanais que quase desapareceram com o avanço das máquinas, ou de festas populares que se tornaram eventos turísticos mais voltados ao espetáculo do que ao significado original. Essas perdas levantam uma questão delicada: como equilibrar evolução e autenticidade? Toda cultura é viva — ela muda, se adapta, mistura influências —, mas há um limite tênue entre renovação e descaracterização. Se uma dança ancestral vira produto de marketing, ou se um ritual sagrado vira atração para selfies, o que se preserva de fato?
Por isso, mais do que manter listas, o papel da UNESCO é incentivar que as comunidades continuem vivendo suas tradições de forma autêntica, transmitindo saberes entre gerações. A força de um patrimônio não está apenas no título, mas na memória coletiva que o sustenta.
Outros motivos para a perda do título de patrimônio
Remover um elemento imaterial é raro. A Convenção de 2003 prevê procedimentos específicos para inscrição, alterações, transferências e remoção — e o Comitê analisa cuidadosamente pedidos, denúncias e o respeito aos princípios de dignidade, igualdade e não discriminação. Além de exclusões, existem também ajustes formais (reduções, transferências de componente, ou pedidos de exclusão feitos pelo próprio Estado-parte).
Dois casos notórios ilustram como expressões culturais podem perder o status de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade quando entram em conflito com os valores defendidos pela UNESCO.
Carnaval de Aalst (Bélgica) – Inscrito na lista em 2010, o tradicional Carnaval de Aalst foi removido em 2019 após repetidos episódios de representações ofensivas contra grupos étnicos e religiosos em seus desfiles. A UNESCO considerou que tais manifestações eram incompatíveis com os princípios fundamentais da Convenção de 2003, que busca promover o respeito pela diversidade cultural e pelos direitos humanos. Diante da crescente repercussão negativa e do dano à sua imagem, o próprio governo belga solicitou a retirada do evento antes mesmo da decisão oficial.
Ducasse d’Ath (Bélgica) – Parte do elemento “Gigantes e Dragões Processionais da Bélgica e da França”, o festival foi excluído da lista em 2 de dezembro de 2022. A decisão veio após denúncias e condenações internacionais sobre a presença de um personagem conhecido como Le Sauvage, representado de forma caricata com traços exagerados de um grupo étnico, incluindo correntes — um conteúdo considerado inapropriado segundo os valores da UNESCO.” Assim como no caso de Aalst, a Bélgica solicitou formalmente a remoção, reconhecendo que a prática feria os princípios de respeito e inclusão cultural que fundamentam o reconhecimento do patrimônio imaterial.
Cultura não é posse, é legado
Discutir quem “possui” uma tradição talvez seja o menor dos desafios. A verdadeira riqueza dos patrimônios imateriais está justamente naquilo que não pode ser medido nem cercado por fronteiras: o gesto transmitido, o sabor compartilhado, o ritmo que atravessa o tempo.
Quando um país celebra uma dança, uma receita ou um ofício tradicional, ele não apenas preserva o passado — ele reafirma um modo de estar no mundo. Mas é importante lembrar: a cultura não pertence a quem a registra, e sim a quem a mantém viva.
As disputas por reconhecimento revelam o quanto esses símbolos significam para as comunidades, mas também mostram que a identidade humana é feita de encontros, trocas e influências cruzadas. Cada patrimônio é, no fundo, um mosaico coletivo — onde cada povo deixa um fragmento de sua história.
Por isso, antes de decidir “quem inventou o quê”, vale mais viver essas tradições de perto: ouvir o som do bandoneón em Buenos Aires, provar o kimchi em Seul, sentir o aroma do café nas ruas de Istambul. Mais do que títulos e fronteiras, o que importa é experimentar o patrimônio no seu lugar de origem, com respeito, curiosidade e o coração aberto para aprender.
Cultura não é posse, é legado. E quanto mais compartilhado, mais forte se torna.
